Antes de ser explicado, o medo costuma ganhar uma forma. Ele aparece como bicho, sombra, ruído, mata fechada, água funda ou presença que ronda a estrada. Nas histórias transmitidas oralmente, essas figuras tornam visível aquilo que a criança ainda não sabe nomear. O conto não elimina o medo; oferece uma imagem com a qual é possível negociar.

As narrativas populares carregam perigos reais e imaginários. Servem para advertir, educar, conter deslocamentos e organizar fronteiras: não sair à noite, não se aproximar do rio, não desobedecer, não abandonar o caminho conhecido. Ao mesmo tempo, permitem experimentar simbolicamente situações de abandono, violência, perda, culpa e transformação dentro do espaço protegido da narrativa.

Em Goiás, o repertório recolhido por estudiosos do folclore inclui figuras como Romãozinho, Pé de Garrafa, Negro-d’água, Teresa Bicuda, onça-da-mão-torta e bicho-come-língua. Elas não compõem um catálogo imóvel. Cada narrador altera a história, aproxima a assombração de um lugar conhecido e atualiza seus efeitos para quem escuta. A oralidade mantém a narrativa viva justamente porque admite variação.

O território participa dessas imagens. Cerrado, rios, fazendas, estradas, cidades e memórias familiares fornecem matéria para que o medo adquira proximidade. Não se trata apenas de perguntar se alguém acredita na criatura, mas de observar o que ela protege, o que proíbe, quem pode falar por meio dela e quais conflitos sociais ou familiares permanecem escondidos dentro do enredo.

Na infância, uma narrativa assustadora pode funcionar tanto como instrumento de controle quanto como elaboração. A mesma história que disciplina também abre espaço para imaginar respostas, reconhecer emoções e transformar uma ameaça difusa em personagem. Por isso, é importante não romantizar o medo nem reduzi-lo a uma lição moral. Seu significado depende de quem narra, de como narra e da experiência de quem escuta.

Essa pesquisa se aproxima do meu trabalho artístico porque muitas imagens surgem nesse limite: aquilo que ameaça e aquilo que pode ser acolhido. A onça que paira sobre um pequeno barco, enquanto o pescador continua seu gesto, não representa a vitória sobre o pesadelo. Talvez represente a possibilidade de permanecer diante dele até que a imagem encontre outro lugar dentro de nós.